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Explorando as histórias de vida

Explorando as histórias de vida

Veremos nesse artigo como as histórias de vidas dos aprendizes podem contribuir, e muito, para o processo de ensino de adultos.

Hoje escrevo sobre a importância das histórias de vida exploradas e compartilhadas em qualquer sala de aula. Já conversamos em outra oportunidade que as experiências são a base da educação de adultos, e que através delas conseguimos envolver os alunos adultos no processo de aprendizagem, certo? Se você iniciar uma pesquisa sobre o assunto, perceberá que muitos educadores já estão explorando as histórias de vida de seus aprendizes e os resultados tem sido ótimos.

Quando nos concentramos nas histórias, nos colocamos à escuta da realidade destes indivíduos, principalmente se conseguirmos ‘extrai-las’ de forma honesta e mais completa possível. Durante a aula, o educador de adultos pode identificar as motivações intrínsecas e as necessidades de aprendizagem de sua turma, que estão totalmente relacionadas com tudo o que experienciaram até aquele momento.

Seja através da técnica de perguntas, ou até mesmo em uma conversa informal, é possível conhecer quem são os aprendizes, por quais dificuldades passaram, o que trazem de conceitos para a sala de aula e até mesmo como costumam aprender. Já comentei aqui algumas vezes, mas não custa bater nessa tecla novamente: quando passamos a ouvir mais e falar menos, os adultos se soltam e o envolvimento acontece.

Começamos por aí: ouvir mais! Além disso, é preciso ter a competência de orientar, de conduzir as experiências compartilhadas e como se fosse um maestro, saber orquestrar as histórias de vida. É interessante saber que seu aluno João fez um intercâmbio para a China? Sim! E que a Maria fala 3 idiomas? Também. E o Juca que trabalha desde os 14 anos de idade? Óbvio. Mas e a Marta que tem 2 filhos e está a procura de um emprego há 8 meses? É claro!

Todo e qualquer ‘fragmento’ da história pessoal, social, acadêmica e profissional de seus aprendizes são recursos que você obteve para envolvê-los em sua aula. Ao saber que o João foi para a China, poderá perguntar a ele quais foram as experiências e percepções que teve no intercâmbio, e com a resposta, relacionar com o conteúdo apresentado. É simples, basta que você queira ouvir as histórias e que dê sentido a elas.

Assim como, ao indicar um livro para a Maria, poderá ser mais certeiro(a), em vez de sugerir uma literatura num idioma que ninguém domina. E o Juca? Já pensou a quantidade de vivências profissionais que ele tem para colaborar com a turma e você não precisar trazer seus ‘incríveis’ cases da Microsoft, Google, Facebook e Boticário? Se engana o educador que, ingenuamente, acredita que os alunos preferem cases de sucesso, em vez de aprender com algo que lhes faça mais sentido e esteja próximo a sua realidade.

Saber que uma aluna está a busca de um emprego, que sua colega arrumou um estágio e que a pessoa ao lado é um empresário só faz com que tais realidades colaborem com visões e realidades distintas e que, se bem utilizadas, somam no processo de ensino-aprendizagem. Tais ‘diferenças’ geram debates, fazem com que a heterogeneidade seja usada a seu favor, e de fato, o papel do educador seja apenas de orientar adultos. Quando o ‘status’ pessoal ou profissional é compartilhado em sala, é o aluno passando a ter confiança no educador, deixando claro: ‘esse sou eu… é isso que estou buscando’.

Certa vez uma aluna compartilhou que sua mãe era professora e que desde criança tinha muito orgulho disso. Ela nos disse que espiava sua mãe corrigindo as provas, preparando as aulas e que em alguns momentos chegou a acompanha-la em algumas classes. Em um segundo momento, deixou ‘escapar’ que a mãe era falecida e que um sonho muito íntimo surgiu com isso: queria também educar, mesmo não ocupando tal função, para que sua mãe sentisse o mesmo orgulho.

Eu poderia simplesmente ter escutado a história e seguido em frente, mas meu papel é de valorizar cada um dos indivíduos que ali estão, assim como toda e qualquer história que eles venham a compartilhar. Não me pareceu justo fazer qualquer comentário neste momento, portanto aguardei. Quando em um terceiro momento, os alunos estavam realizando uma atividade em grupos e percebi que aquela aluna ajudava um dos colegas que estava com dificuldade de interpretar o que deveria ser feito.

Discretamente fui até ela, coloquei a mão em seu ombro e agradeci pela ajuda que tinha prestado ao colega. Também olhei no fundo de seu olho e disse que, sem dúvidas, a mãe estaria orgulhosa pela sua postura de educar e orientar um igual. Essa não foi a única vez que isso aconteceu, talvez com você também tenha acontecido, o que muda é o valor que damos a pequenos sinais como esse. Quantos alunos já não deixaram ‘escapar’ motivações, pensamentos, expectativas e histórias de vidas, e você simplesmente ignorou?

Nós, educadores, temos a obrigação de motivar, de envolver e de respeitar quem são cada um dos participantes. Chamar pelo nome e agradecer pelas participações, é o mínimo. Descubra quem eles são, o que buscam naquela aula, como preferem aprender e o mais importante, o por que de estarem ali. Esse caminho é a essência da educação de adultos, é o que a Andragogia defende em seus pressupostos.

Perceba que não é preciso forçar nada, nem ser coercitivo(a). O adulto deposita confiança em um ambiente amigável, comunicando-se na horizontal, quando se sentem valorizados. É assim numa roda de conversa com os amigos, num ambiente em que ninguém precisa erguer a mão para falar, onde não há detentores de saberes e todos aprendem e ensinam por igual. A sua sala de aula é assim?

Tenho muitos colegas professores que ao se depararem com alunos que costumam falar (falar, falar e falar…) de suas experiências, ‘cortam’ de imediato. “Vamos nos conter ao conteúdo!”, certa vez um deles disse. Talvez seja medo, pois não sabem o que fazer com o que podem vir a ouvir, ou quem sabe, ainda não se deram conta de que estamos orientando seres humanos, com inúmeras histórias significativas e que, no mínimo, podem nos ensinar muito.

Te desafio a ouvir sobre as experiências de seus alunos e começar, desde já, valorizando e explorando as histórias de vida.

2 comentários
Caio Beck
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2 Comentários

  • Jeferson
    abril 9, 2018, 11:23 pm

    Ótimo artigo Prof. Caio!!! Parabéns

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    • Caio Beck@Jeferson
      maio 4, 2018, 12:59 pm

      Muito obrigado, Jeferson! Forte abraço.

      REPLY