728 x 90
728 x 90

Lições da Sociedade dos Poetas Mortos

Lições da Sociedade dos Poetas Mortos

Você já assistiu o filme Sociedade dos Poetas Mortos? Neste artigo trago algumas reflexões e lições aprendidas com esta incrível história.

Já faz tempo que penso em escrever sobre o filme Sociedade dos Poetas Mortos, afinal muitos alunos me perguntavam: ‘Nesse filme o professor usa os conceitos andragógicos, né?!’

Se você ainda não viu esse clássico de 1989, sugiro que o faça. O filme se passa em 1959, na Academia Welton, considerada na época uma das melhores escolas secundárias dos EUA. A história acontece em torno do professor John Keating, um ex-aluno da instituição, que ensinava em Londres (Chester School) e foi chamado para substituir um professor aposentado na matéria de Literatura.

Uma das cenas que mais me marcou no filme, foi a primeira vez que o “Sr. Keating” entrou na sala de aula. Para que você entenda o enredo e perceba o impacto, é preciso analisar o que acontece minutos antes.A instituição de ensino é tradicional e antes de aparecer a primeira aula do professor Keating, outros educadores surgem ‘orientando’ seus alunos. Me chama a atenção 3 professores, de disciplinas diferentes. Um deles diz de forma enfática aos seus alunos: “Escolham 3 experiências de laboratório e façam relatórios a cada cinco semanas. As primeiras 20 perguntas do fim do primeiro capítulo são para amanhã”.

O segundo educador aparece trabalhando o método de repetição/fixação: “Agricolam, Agricola, Agricolae, Agricolarum, Agricolis, Agricolas… Outra vez… Agricolam…” Os alunos repetiam tudo o que o professor falava em voz alta. O terceiro professor fala sobre a importância dos trabalhos e ‘ameaça’: “Quem não apresentar os trabalhos feitos terá menos 1 ponto na nota final.”

Mesmo sendo na década de 50, ainda encontramos essas atitudes em sala de aula. Mas, vamos falar sobre o Sr. Keating (forma como o professor é chamado pelos alunos). Sua turma de aprendizes está na sala de aula, aguardando pelo novo educador. Ouve-se assobios e lá vem ele, tranquilo, com um alegre sorriso, entra na sala e caminha por entre os alunos. Se dirige até a porta e convida a todos para que o sigam até um outro ambiente.

Em uma outra sala faz a seguinte pergunta: “Oh Capitão, meu CapitãoQuem sabe de onde veio esta?” Percebendo o silêncio, ele diz: “É um poema sobre Abraham Lincoln“. Os alunos não estavam acostumados com abordagens feitas dessa forma, esperavam o tradicional, o básico, o ensino ‘top-down’. (No final do artigo, farei uma referência a essa parte do filme. Fará sentido!)

É interessante como o professor se coloca na horizontal da seguinte forma: “Também estudei aqui e sobrevivi. Eu não era isso que vocês estão vendo, as pessoas jogavam livros na minha cara, era magro, um fracote intelectual…” Vale ressaltar que ele sempre chamava seus alunos pelo nome (ou sobrenome), agradecia a participação, mesmo quando os alunos não sabiam ou erravam a resposta.

Nessa primeira aula o educador quebra paradigmas ao falar sobre Carpe Diem, pedindo para que os alunos se aproximem de fotos e comentando sobre o legado que os estudantes antigos deixaram. Ele pede para que os alunos escutem os alunos das fotos sussurrarem: Carpe Diem… Carpe Diem… Mesmo sendo uma ‘fala simulada’, a mensagem sobre legado foi dada e as percepções sobre essa abordagem ficou clara quando os alunos saíam da sala de aula.

“Foi estranho…”, disse um dos alunos. “Mas diferente.”, um outro colega completou! “Entre nós, foi sinistro.”, disse outro que vinha atrás. E teve um dos alunos que ainda comenta: “Aquilo que aconteceu irá cair no teste?”. Fazer com que os alunos reflitam, pensem sobre o aprendizado, saiam da zona de conforto, é algo difícil para qualquer educador.

Na segunda aula, o professor pede para um aluno (Neil Perry) ler um parágrafo do livro. Conforme o aluno vai lendo, o Sr. Keating vai anotando no quadro. Os demais colegas acreditam que deveriam copiar o que o professor está escrevendo e assim o fazem. É interessante que após a leitura ele diz que aquilo era uma “merda”. Que não gosta do autor e pede para que arranquem a página do livro. “O autor já era, quero que vocês pensem sozinhos”. Além da página que foi lida, pede para que arranquem todo o capítulo que tratava sobre o tema.

É nesse momento em que ele sobe na mesa (cena clássica do filme) e pergunta: “Por que estou aqui?”. Um dos alunos responde que é para se sentir mais alto. Ele diz que não, agradece e continua: “A resposta é: Estou aqui, para me lembrar que devemos olhar constantemente as coisas de maneira diferente.” Ele convida os alunos a subirem lá. “Ousem avançar e encontrar novos pontos de vistas”.

Na primeira aula o professor fala sobre legado e a importância de aproveitar o dia, na sequência a mensagem é encontrar novas formas de pensar. Para a época, seus métodos eram pouco ortodoxos e causavam espanto, porém, para quem estava ‘dentro’ se sentia cada vez mais envolvido. A preocupação que ele tinha com o aprendizado individual, também é algo que chama a atenção no filme.

O professor conhecia os objetivos individuais dos alunos, assim como seus pontos fracos e necessidades de aprendizagem. Um dos alunos (Todd Anderson) tem dificuldade de leitura e o professor identificou isso. Quando pede para que a turma escreva um poema e avisa que terão que ler na segunda-feira, se direciona para este aluno e diz: “Sei que você tem dificuldade, sua toupeira.”

No dia da apresentação, o aluno não fez o poema e então o professor o envolve, pedindo para dar um grito bárbaro “yawp” em vez de ler um poema. Ele poderia muito bem ter dado nota negativa ou ignorado o aluno, mas ele foi além disso, envolveu o aluno e o fez explorar a imaginação. (Essa cena do filme você pode assistir umas 3x, vale a pena)

O reconhecimento vem pela primeira vez, quando ao jogar futebol eles carregam o professor, dando gritos e comemorando. Fico me pensando, quantos professores atuais seriam carregados e jogados para cima por seus alunos. Além do reconhecimento, foi uma forma de agradecer pelo esforço, por querer fazer a diferença em sala de aula.

É claro que quem está de fora não aceita essa forma ‘não-tradicional’ de ensino. Os pais, o diretor e os demais professores questionam a forma com que o Sr. Keating ensina Literatura. Inclusive, tem uma parte onde o diretor chama o professor e diz: “Quero que você os prepare para a Universidade. Não queremos esses métodos, temos provas para isso!”

Sempre caímos no tradicional pensamento: “Sempre deu certo, por que mudar?”. Pela simples e rápida mudança que o professor proporcionou, alguns alunos descobriram gostos pela poesia, pelo teatro, lutaram contra suas dificuldades e passaram a valorizar algo que antes era ‘apenas literatura’.

Quantas vezes em nossas salas de aula, não deixamos de envolver nossos alunos, de incentivá-los a aplicar o conteúdo em suas vidas profissionais, a enxergar o contexto de forma diferente, a pensarem sozinhos? Queremos continuar seguindo ementas, executando aulas e sendo indiferentes com aqueles que estão sentados em nossa frente?

No final do filme, o professor é mandado embora da instituição. O professor que o substitui, entra na sala de aula e começa com a seguinte pergunta: “O que é poesia?”. Se você acha que ele também desafiou seus alunos a pensarem sozinhos, se engana. Ele pede para que abram seus livros (onde lá estaria a resposta) e pede para que o aluno que tem dificuldade em ler, faça a leitura (sem se importar com quem ele é).

O que mais chama a atenção e comove é que ao ir buscar suas coisas na sala, o professor se despede da turma e aquele aluno com dificuldades sobe na mesa e fala: “Oh Capitão, meu Capitão”. Os demais alunos sobem na mesa, o seguindo nas falas e fazendo a homenagem. Além de lembrarem a frase da primeira aula, sobem na mesa, pois era algo que nunca tinham pensado fazer (e aprenderam com o professor), ou seja, valorizaram o aprendizado.

Não existe avaliação que supere isso, nem métodos que sejam tão eficazes quanto o envolvimento de seus alunos. Se algum dia seus alunos fizerem algo do tipo, deixando claro que aprenderam sobre o conteúdo, sobre suas mensagens e reflexões, perceberá que não há técnica, dinâmica ou ferramenta que supere a mensagem de “Professor, muito obrigado. Aprendi!”.

2 comentários
Caio Beck
ADMINISTRATOR
AUTOR

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos com * são obrigatórios.

Cancel reply

2 Comentários

  • Renata
    Abril 15, 2018, 7:20 pm

    Eu queria uma explicação sobre a fala dele que é essa " A ideia da educação é aprender a por si só a pensar"

    REPLY
    • Caio Beck@Renata
      Abril 16, 2018, 8:53 am

      Olá Renata, como vai?
      Muito legal a sua pergunta.
      Essa frase vai de encontro ao real significado da educação: orientar para a vida.
      Se formos até a etimologia da palavra educar, do latim educere, perceberá que é algo como ‘conduzir/orientar para a vida’.
      Os educadores não deveriam ser os únicos detentores do saber, e sim, ter a tarefa de fazer com que os aprendizes encontrem os melhores meios para alcançar um novo conhecimento. Que estes possam pensar e refletir sobre os caminhos do saber, que é o famoso ‘aprender a aprender’, que tanto se fala nos dias de hoje.
      Um dos pilares da educação para o século XXI, inclusive, é aprender a conhecer, que também está relacionado a esse pensamento do ‘Sr. Keating’. O cuidado dele para cada aluno, em conhecer suas motivações e necessidades, e aí buscar despertar a vontade pelo aprendizado, é o que deveríamos fazer em todas as nossas aulas.
      Cada ser, jovem ou adulto, possui suas próprias experiências, as suas histórias de vida e motivos particulares de estarem em sala de aula. Cabe a nós, educadores, gerar reflexões, provocá-los e possibilitar que cada um deles pense por si e desperte interiormente o devido interesse pelo aprendizado.

      REPLY