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Sala de Aula sem Professores

Sala de Aula sem Professores

Sala de Aula sem Professores, é possível? Neste artigo apresento conceitos e casos que defendem a autoaprendizagem na educação de adultos.

Quando resolvi inserir o título Sala de Aula sem Professores, foi inspirado no livro Learning without a teacher (1967), de Allen Tough, educador canadense. Quando li essa obra, passei a pesquisar instituições atuais que utilizassem os conceitos de Tough, em que alunos adultos são independentes e a aprendizagem é autodirigida, sem a necessidade de receber instruções diretas de um professor.

Sei que esse pode ser um artigo ‘polêmico‘, portanto, peço que leia todo o texto, antes de criar uma percepção equivocada da mensagem que quero transmitir. Sim, eu sou muito ciente da importância de um professor em sala de aula, inclusive, sou um deles. Mas, é sempre bom conhecermos novas metodologias e cenários possíveis para a educação de adultos.

Como disse certa vez William Ford, bisneto de Henry Ford, “vivemos numa era de compartilhamento de conhecimentos e não de acumulo de conhecimentos”. Não há motivo para que uma única pessoa em sala de aula seja a detentora do saber e decida quando, como e quais conhecimentos e saberes serão compartilhados.

O estudo de Allen Tough

Tough divulga um estudo feito no departamento de Estudos em Educação do Instituto de Ontario, e nos 10 capítulos do livro, apresenta conceitos de autoaprendizagem; aborda a importância do aluno adulto assumir o papel de condutor da própria aprendizagem, desde o planejamento até a condução do estudo; apresenta casos em que o adulto realmente precisa de assistência de um orientador; debate sobre a frequência do estudo, duração e matéria envolvida na autoaprendizagem, sem que prejudique a capacidade de aprender, etc.

Tough defende que a instituição deve incentivar o pensamento crítico, a autonomia, a colaboração na aprendizagem, a cultura do erro e principalmente, a aplicação prática do conteúdo. Uma sala de aula sem professores traria algumas vantagens para que essas situações aconteçam, principalmente porque os alunos adultos se sentiriam mais ‘livres’ para compartilharem seus saberes, experiências e histórias de vida. Não haveria um julgamento de seus preconceitos e opiniões formadas, pois todos são aprendizes.

Se você ainda não leu este livro, deixo aqui a sugestão. É um livro antigo, mas que nos dias de hoje faz muito sentido. Acredito que 5 décadas atrás, ao lançar um estudo com esse título, talvez Tough tenha sido muito questionado pelo mundo acadêmico. ‘Onde já se viu uma sala de aula sem professores? Absurdo!’ Atualmente, faz muito mais sentido, principalmente quando já é possível encontrar teorias e referências que embasam esse tipo de ensino.

A Heutagogia

Você já ouviu falar sobre Heutagogia? Dentre as ciências agógicas, uma das vertentes da educação é a Heutagogia, que significa ‘auto orientar’, ou ‘auto aprender’. Vem do grego: heuta (auto) + agogus (orientar). Nesse modelo de educação, é o aluno que ‘corre atrás’ e determina o que, como, quando e porque irá estudar determinado conteúdo.

Por mais que não seja tão conhecida como Pedagogia e Andragogia, a Heutagogia começa a ser defendida a partir do século XXI. Mais precisamente em 2000, Hase & Kenyon escrevem um artigo sobre o conceito heutagógico, que recomendo fortemente a leitura, e em 2010 publicou um ótimo livro sobre o assunto.

Vale salientar que o conceito de autoaprendizagem é mais antigo, tanto que em 1975, Malcolm Knowles, o pai da Andragogia, escreveu o livro ‘Aprendizagem Autodirigida: um guia para alunos e professores’, que já tratava muitos dos conceitos que hoje se debate.

A autoaprendizagem pode ser chamada também de autoinstrução, autoeducação, estudo independente, estudo individual ou estudo autodirigido. É o ato de assumir a responsabilidade primária de aprendizagem, de ser o próprio professor, planejando a pesquisa, iniciando os estudos e conduzindo um projeto de aprendizagem. Será que é difícil?

Alguns casos reais

Já falei em outros artigos sobre a École 42, uma instituição francesa, que hoje já está no vale do Silício (EUA), onde a Heutagogia é a base da aprendizagem dos alunos. A 42, como a instituição é chamada, possui alguns programas de formação na área de tecnologia, inclusive uma engenharia de software com algumas particularidades: não há aulas, professores ou disciplinas. Os estudantes aprendem uns com os outros e são 100% responsáveis pelo aprendizado.

A colaboração é fundamental na 42, com projetos individuais e coletivos, fazendo com que a troca de conhecimentos e experiências seja a principal ferramenta de aprendizagem. É interessante destacar que os próprios colegas avaliam o desempenho do estudante, com diálogo aberto, comunicação horizontal e soluções práticas. Assim que você finaliza um projeto, submete para avaliação dos colegas, normalmente de 3 a 5 pares, que vão até você e aplicam uma nota e o feedback devido.

O tempo que cada estudante leva para concluir o programa depende de suas necessidades, estilo de aprendizagem e estágios/projetos. Se funciona? Assim que o programa foi lançado, 80% dos alunos receberam ofertas de emprego antes da conclusão e 100% estava trabalhando logo após o término do programa. Nos primeiros 3 anos, a École 42 formou 1.000 ótimos profissionais para o mercado.

Sala de aula sem professoresÉcole 42

Esse mesmo estilo de educação e aprendizagem pode ser encontrado em instituições no mundo todo, como por exemplo na WeThinkCode (África do Sul), WGU University, UNIT Factory (Ucrânia), Colmeia (Finlândia), 19 (Bélgica), 21 (Rússia), CODAM (Holanda), dentre outras.

Qual é o receio?

Para muitos educadores, pesquisadores e instituições, uma sala de aula sem professores é surreal, algo inimaginável, pois aprendemos durante a vida que se tem uma sala de aula, automaticamente precisamos de um professor, se não, não há ensino. E qual seria o sentido de uma sala de aula, sem aprendizagem? Essa é a questão, pois é possível chegar na aprendizagem, sem o ensino vindo de um professor. Complexo, não?

A fonte da aprendizagem não é exclusiva do professor e é justamente a visão desta figura em sala de aula que Tough, Knowles e tantos outros colocam em debate. Saliento que aquele modelo que estamos acostumados, de uma pessoa com experiência acadêmica e/ou profissional, que tem certeza do que está falando, nunca erra, apenas lê slides, guia as rédeas do conhecimento e transmite o famoso ensino ‘top-down‘, funcionou muito bem até o século passado.

Agora os alunos adultos querem se sentir provocados e orientados. Resolução de problemas, metodologias ativas, aprender uns com os outros, tudo isso faz parte de um novo modelo de educação. Se você não acompanha tal tendência, que Tough conseguiu visualizar há décadas, talvez você acabe ficando para trás. Tanto as escolas, como as universidades que se destacam, são aquelas que inovam nas metodologias, que permitem (e respeitam) a participação dos indivíduos, que se comunicam na horizontal e geram aprendizagens significativas.

Dicas de livros

Além do livro de Allen Tough, deixo também algumas outras referências que foram usadas pelo educador canadense para a construção da obra:

– Bonthuis, R. The independent study program in the United States: a report on na undergraduate instructional method. New York: Columbia University Press, 1957.

– Hatch, W. & Benner, A. Independent study: new dimensions in higher education. Washington: US Government Printing Office, 1960.

– Jackson, P. The teacher and individual diferences: individualizing instruction. Chicago: The National Society for Estudy of Education, 1962.

– Miller, H. Teaching and learning in adult education. New York: The Macmillan Company, 1964.

– Knowles, M. Self-directed learning: A guide for learners and teachers. Chicago: Association Press, 1975.

– Hase, S. & Kenyon, C. Andragogy and heutagogy in postgraduate work. London: Continuum Press, 2010.


– Beck, C.(2019). Sala de aula sem professores. Andragogia Brasil. Disponível em: https://andragogiabrasil.com.br/sala-de-aula-sem-professores

Caio Beck
ADMINISTRATOR
AUTOR

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