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#2 Professores pelo Mundo (França)

#2 Professores pelo Mundo (França)

Na segunda parte do quadro Professores Pelo Mundo, dessa vez vamos bater um papo sobre a realidade dos educadores franceses. Preparado(a)?

Vamos para a segunda edição do Professores pelo Mundo. No primeiro artigo da série falamos sobre os professores da Finlândia. Não leu? Corre lá. (Link)

Nesse artigo vamos falar sobre os professores de ensino superior na França, um país que recebe muitos brasileiros. O Ministério das Relações Exteriores estima que dos mais de 2 milhões de brasileiros que atualmente residem no exterior, cerca de 60.000 viveriam na França. Bastante, não?

Antes de falar dos professores na França, vou ilustrar como funciona o ensino francês e as instituições de ensino superior:

A primeira universidade francesa foi criada em Paris em 1200, ou seja, séculos antes do Brasil ser ‘descoberto’, já haviam professores universitários por lá. Em 2011, havia cerca de 100 universidades na França, um número pequeno, mas que faz jus ao tamanho do país e ao número de estudantes (há cerca de 1,5 milhões universitários na França).

As universidades são instituições públicas, administradas de forma democráticas, e beneficiando certa autonomia. Os ensinos são acessíveis a todas pessoas titulares do baccalauréat (criado por Napoleão Bonaparte em 1808). É através do baccalauréat, ou le bac (como é conhecido) que os estudantes chegam até o ensino superior. No Brasil, temos o Enem, advanced level no Reino Unido, o bachillerato na Espanha, o abitur na Alemanha e por aí vai.

Os estudos universitários clássicos resultam na licence (graduação), após três anos de estudo, no master (mestrado), dois anos após a licence e no doctorat (doutorado), três anos após o master. Comparando com o Brasil, nos graduamos em 4 ou 5 anos, pós-graduados em 2 anos, nos tornamos mestres em outros 2 anos e em mais 4, nos tornamos doutores. Em resumo, um doutor brasileiro estuda uma média de 5 anos a mais do que o francês (comparativo simples e bobo, mas que nos faz refletir na eficiência do ensino #qualidadeXquantidade).

Além das universidades, existem também as Grandes Ecoles e as escolas especializadas, que acolhem um número mais restrito de alunos. O processo de seleção é mais rígido e as formações são voltadas ao âmbito profissional: engenharia, arquitetura, artes, administração, tecnologia, etc.

Particularmente, pesquisei muito sobre a Ecole 42, uma instituição que defende a Heutagogia (autoaprendizado). Após uma palestra do professor Vanderlei Martinianos, que fazia parte da equipe de orientadores desta escola francesa, passei a ler sobre eles e recomendo para qualquer um que queira conhecer formas diferentes de ensino. Lá, assim como na unidade que abriram no Vale do Silício, não existem professores em sala de aula, nem livros, muito menos cobram mensalidades. Os aprendizes compartilham experiências e muitas vezes ‘acampam’ em qualquer canto, uma vez que o ambiente funciona 24h por dia.

Voltando a falar dos professores, existem 3 níveis acadêmicos, sendo o primeiro o instrutor de ensino (attaché temporaire d’enseignement), que não tem estabilidade no emprego e tem seu contrato renovado por no máximo três anos. Esse educador não tem que ter doutorado, mas tem que estar a no máximo a um ano da obtenção do título.

Pensando em uma hierarquia, acima do instrutor de ensino vêm os enseignants-chercheurs (professores-pesquisadores) que dão aulas e desenvolvem atividades de pesquisa. Você pode ser um professor associado (maître de conférences), ou um professor pleno (professeurs des universités), ambos com estabilidade no emprego.

Estas duas últimas categorias comportam três subníveis cada uma, e você passa de um subnível para o subnível seguinte por um critério misto de mérito e ‘tempo de casa’. No entanto, não se passa de professor associado a professor pleno sem prestar um novo concurso. É como passar por um novo processo de admissão na carreira, muito embora você continue ligado à mesma universidade ou instituição.

Falando em salários, há 10 anos atrás os professores já recebiam no mínimo um salário de 1800 euros (R$ 6.000,00), de acordo com o Relatório Schwartz. De acordo com a pesquisa, muitos educadores de ensino superior ganhavam na época em torno de 3700 euros, ou um pouco mais de 12,4 mil reais. É um salário bom? Claro. Ainda mais que estamos falando de 10 anos atrás, quando a pesquisa foi feita.

Por curiosidade e para me atualizar, coloquei no Google: ‘maître de conférences salaire 2016’ e encontrei muitos sites com tabelas onde dizem que o professor universitário recebe de 2500 a 5000 euros (quase 17 mil reais). Deixando a questão se isso é muito ou não, os professores ainda recebem muitos bônus e premiações das universidades, que incentivam as pesquisas em vários campos.

Só para se ter uma ideia, um prêmio pelas melhores pesquisas de 2011/2012 foi de 1.245 euros. A França incentiva seus educadores a pesquisarem (é claro que fora do horário de trabalho, enquanto não aplicam aulas) e apenas para ressaltar, um bônus para pesquisa a nível de doutorado, era em torno de 6,5 mil euros.

Números, números e mais números. Poderíamos ficar aqui trazendo vários valores, para mostrar que sim, o professor é valorizado. Não somente pelo salário, mas como também pela sua carga de trabalho (mínimo de 192 horas-aula por ano, sendo que cada hora-aula corresponde a 4,2 horas de serviço público).

Fato importante é que esse professor não gastou 60 mil reais em um mestrado, nem 100 mil em um doutorado como acontece no Brasil. Lembre-se que as universidades francesas são todas públicas: o governo francês assume a maior parte do custo do ensino (cerca de 10.000€ por ano por estudante), mantendo as taxas de inscrição em um patamar dos mais baixos do mundo (184€/ano para Licence, 256€/ano para Master e 391€/ano para Doctorat).

Agora, nenhum valor supera isso:

“A faculdade, professores e investigadores gozam de independência total e  completa liberdade de expressão no exercício das suas funções de pesquisa, ensino e com as reservas que lhes são impostas, de acordo com as tradições acadêmicas e as disposições deste código, os princípios da tolerância e da objetividade.”

Pois é, meus amigos. essa frase está no artigo L. 952-2 do Código de Educação da França. Enquanto ‘engessamos’ nossos professores, ‘metendo guela a baixo’ um plano de aula, um modelo de ensino tradicional do século XIX, nos deparamos com realidades como essa. Quem dera, se nossos educadores tivessem a liberdade de aplicar novas metodologias no ensino superior, poder mudar a forma de avaliação e serem reconhecidos pelas suas pesquisas. Seria lindo! 🙂

Ser professor na França não significa receber um dos 10 maiores salários do mundo (em Luxemburgo, país que faz divisa com a França, o salário do professor de ensino fundamental ultrapassa os 100 mil dólares por ano). Também não significa ter carga horária baixa, como é na Finlândia, mas pelos depoimentos que encontrei e contatos com professores e alunos que estiveram na França, é uma profissão valorizada.

Duas universidades de destaque, que disputam lugares entre as 100 melhores do mundo são: Université Pierre-et-Marie-Curie e Université Paris-Sud.

Se gostou desse modelo de artigo, compartilhe em suas redes sociais. A ideia é criar o próximo artigo sobre professores no Canadá e nos Estados Unidos.

E se você conhece algum educador nesses países, pode enviar o contato para que possamos bater um papo antes da publicação. 🙂

Caio Beck
ADMINISTRATOR
AUTOR

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