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O ‘novo’ papel do educador de adultos

O ‘novo’ papel do educador de adultos

A educação de adultos já acontece há muitos séculos, mas na atualidade, o que se espera do andragogo do século XXI?

Já comentei em outros artigos que aquele modelo tradicional do professor que chega em sala de aula acreditando ser o ‘detentor do saber’, que apenas se comunica na vertical e que não se importa com quem são seus alunos, já está ‘fora’ do que se espera de um educador do século XXI.

Perceba que não é a opinião de quem vos escreve, e sim, dos mais influentes pensadores e educadores de adultos, assim como, são os fundamentos dos Pilares da Educação creditados pela UNESCO. Um professor que não sabe trabalhar as experiências e as histórias de vida em sala de aula, é apenas um executor de slides. Para não me tornar repetitivo, quero levar esse texto para um outro caminho: a cultura da aprendizagem.

Quando somos crianças, aprendemos a depender dos adultos, seguir alguém mais sábio que nós, que de maneira ‘top-down’ conduzirá nossas aprendizagens. Nossos pais nos dizem o que é certo ou errado, a sociedade nos dita as regras, e em sala de aula, o papel do professor é neste mesmo caminho, de nos apresentar o que/como/quando devemos aprender algo.

Na infância somos totalmente dependentes e nossas vidas são geridas pelo mundo adulto. Se nos dizem que a matemática deve ser aprendida, aceitamos. Se nos dizem que devemos crer em uma figura religiosa, assim o fazemos. A todo momento, esse conceito de dependência é reforçado pelo mundo adulto. (Vale ressaltar que as escolas que se destacam hoje em dia, conseguem ‘fugir’ desse modelo)

O que acontece é que nós crescemos, e com isso, nossa personalidade vai se formando, começamos a tomar algumas decisões por conta própria, experimentamos e erramos ao querer ter uma atitude independente, mas percebemos que podemos ser responsáveis por aquilo que acreditamos ser ‘certo ou errado’, de querer aprender o que nos faz sentido, assim como, de gerir a nossa própria vida.

Quando passamos a enxergar o mundo com nossos próprios olhos, e não mais com os dos outros, deixamos a dependência um pouco de lado. Definimos, sem qualquer influência, o time para qual nós torceremos, nos apaixonamos pela pessoa que nos atrai e até definimos a área de atuação profissional. Não dependemos mais de alguém que nos diga ‘faça isso, se não ficará sem aquilo’, ou ‘esse é o melhor caminho, acredite’.

Gerenciar nossas próprias vidas é de total responsabilidade do ser adulto. Seja no ambiente pessoal, social, profissional, na igreja, nos jogos dos finais de semana, nos relacionamentos, sabemos no que acreditamos e nossas decisões são auto-dirigidas. A grande questão é quando voltamos para a sala de aula, este mesmo adulto que é totalmente independente em todos os aspectos de sua vida, no momento em que se fala de educação, ele se senta em uma carteira, cruza os braços e aguarda pelo aprendizado.

Seja no meio acadêmico, em um treinamento empresarial, numa formação técnica, ou em qualquer outra sala de aula, nos sentimos dependentes dos professores, daquele contexto educacional, do currículo que nos é imposto, o que nos gera um conflito interno. “Poxa, mas eu preciso erguer a mão para falar?”; “Por que a gente senta enfileirado? Que coisa de criança.”; “Em que momento vão me perguntar das minhas motivações e interesses?”; “Poxa, o professor nem sabe meu nome!”; “Como assim ele diz que estou errado? Sempre acreditei nisso!”.

Quando trato da ‘cultura da aprendizagem’ é que há séculos essa é a educação que nos foi imposta. Caso queira aprofundar-se nessas questões, sugiro que leia sobre a educação religiosa no século VII, as práticas de ensino dos séculos XII e XIII, para depois começar a entender Comenius e a pedagogia tradicional. A questão é que a educação de adultos é mais antiga que essas datas, e já na antiguidade grega, o que vos indico como “o novo papel do educador de adultos”, em grande parte já era aplicado.

Portanto, saber se comunicar na horizontal, gerar reflexões, ser flexível, conhecer os aprendizes (motivações e necessidades), explorar as experiências, saber avaliar durante todo o processo de orientação, e realmente ouvir o que os alunos dizem (escuta ativa), não é coisa nova. As ferramentas educacionais que hoje estão em alta, já existiam há décadas, o que despertou o interesse pela utilidade é a mudança nesta cultura da aprendizagem.

Com o acesso a informação e com o adulto podendo auto-dirigir o conhecimento, sem a dependência de um ‘detentor do saber’, o professor tradicional sentiu-se na obrigação de acompanhar tal mudança. Esse profissional sentiu a necessidade de aprender sobre pessoas, de entender sobre neurociência/PNL, de ser mais empático, de dominar técnicas e ferramentas educacionais, enfim, está aprendendo a ensinar o aprendiz adulto.

Planejar e executar uma aula para adultos é totalmente diferente da aula para criança ou para o adolescente. Vou mais além, uma aula que aplicamos na turma X, não pode ser, em hipótese alguma, a mesma para a turma Y. Os aprendizes não são os mesmos, os contextos são diferentes e é aí que entra o ‘novo educador de adultos’. Ele é mais humano, ele escuta mais do que fala, ele gera reflexões e não faz tantas afirmações, ele não se preocupa com a prova e sim, com o compartilhamento em sala de aula.

Por fim, deixo uma reflexão. Você já ouviu algum aprendiz te dizer uma dessas frases abaixo?

“Professor, você é incrível. Foi o único a falar durante toda a aula, deu exemplos apenas que você entendia, não deixou ninguém perguntar… que profissional!”

“Vou lembrar sempre de ti, querido professor. A todo momento você nos mandava anotar o que dizia, pois cairia na prova. Não aprendi nadinha, mas tirei 10! Muito obrigado, mestre.”

“Que incrível sua abordagem. Em vez de nos chamar pelo nome, criou apelidos, me chamava de ‘pessoa sentada no fundão’, ao meu colega de ‘rapaz de boné’… Foi totalmente frio e isso me chamou a atenção, vou usar isso em minha vida!”

“Se tem algo que me lembro em nossa aula é que você possui 4 especializações, 20 anos de experiência na empresa ABC, já viajou o mundo, é casado há 10 anos, torce para o Time X, tem um carro do ano, fala 3 idiomas. Que prazeroso lembrar disso! Obrigado por compartilhar isso conosco. Nunca aprendi tanto.”

2 comentários
Caio Beck
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2 Comentários

  • Edson Moreno
    maio 18, 2018, 1:17 pm

    Quando você comenta em seu artigo "Quando passamos a enxergar o mundo com nossos próprios olhos, e não mais com os dos outros, deixamos a dependência um pouco de lado", eu me questiono sobre nossos modelos mentais ou Mindset, pois não é tão fácil quebrar modelos construidos durante a nossa infância e pré-adolescência. Enxergar o mundo com nossos próprios olhos depende de quanto nós nos autoconhecemos, pois sem este trabalho, não creio que consigamos enxergar algo com nossos próprios olhos.

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    • Caio Beck@Edson Moreno
      maio 21, 2018, 8:25 am

      Olá Edson Moreno!
      Tudo bem contigo?
      É justamente isso que pretendo provocar neste e em outros artigos. A Andragogia parte de uma base da filosofia socrática, onde o princípio é o autoconhecimento. Precisamos sim olhar mais para dentro, buscar a interioridade e a partir disto, identificarmos lacunas a serem preenchidas (novos conhecimentos e habilidades).
      Se passamos a entender que somos indivíduos únicos, com interesses e necessidades particulares, talvez não faça refletir que temos nossa própria forma de aprendizagem, nosso próprio tempo e uma motivação interna que ninguém nos tira.
      Não é fácil, mas como você bem disse, sem este trabalho dificilmente conseguiremos enxergar algo com nossos próprios olhos.

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