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Aulas de 50 minutos são ideais?

Aulas de 50 minutos são ideais?

Essa é uma questão muito importante e para responder devemos compreender a história recente da educação e do formato tradicional de ensino.

É muito provável que você já tenha se questionado se as aulas de 50 minutos são ideais. Neste artigo, quero responder duas dúvidas: (1) quando surgiu esse formato? (2) é o melhor formato para a educação atual?

O formato de 50 minutos foi criado há mais de 100 anos.

No século XVII e XIX, cada aula escolar possui a duração de 60 minutos. É conhecida como “hora de estudo” e normalmente acontecem pela manhã e tarde, com intervalo de três horas. No início do século XX, pesquisadores divulgam estudos que apontam que as crianças mais novas devem ser ensinadas com aulas de 30 minutos e as mais velhas com aulas de 45 a 50 minutos.

Em 1910, um estudo publicado (Academic and Industrial Efficiency) por Morris Cooke, inicia uma proposta de aulas neste formato. No ano seguinte (1911), o ministro da cultura da Prússia (atual Alemanha), estabelece que as aulas nas instituições de ensino superior devem ter duração de 45 minutos. Em 1914, outro estudo (The Training of Teachers in England, Scotland and Germany), publicado por Charles Judd, segue o mesmo caminho, sugerindo aulas de 50 minutos.

Neste período muitos estudos são divulgados, alguns a favor das aulas de 50 minutos, outros que defendem 45 minutos. Um dos estudos ‘de peso’ que colaboram para a padronização de 50 minutos é o trabalho elaborado pela Carnagie Foundation for the Advancement of Teaching, que defende que uma hora de estudo, denominada por eles como Carnegie Unit, equivale a 50 minutos.

O tema é discutido por muitos professores, psicólogos e neurocientistas, sendo que, a cada década, muitas pesquisam defendem que o estudante já não consegue se concentrar por tanto tempo em sala de aula. O principal motivo são os estímulos externos que os estudantes recebem durante os estudos. Em 1945, por exemplo, um estudo com foco no treinamento de fuzileiros navais, elaborado pela Universidade de Illinois, defende que as aulas devem ter, em média, 40 minutos.

A tendência acadêmica é essa, que o tempo de aula seja cada vez menor. Em 1965, Frost publica um artigo sobre a aprendizagem do aluno adulto (Observations on a great occasion) e relata que após 15 minutos de aula, 10% dos aprendizes não estão mais atentos ao conteúdo e após 35 minutos, todos estão dispersos. Surge então os “snap courses”, conceito básico para cursos de curta duração, rápidos e objetivos, uma realidade para a educação à distância.

Te convido a pesquisar mais sobre o tema e perceber que, cada vez mais, as publicações apontam que aulas de 60, 50, 45, 40, 30 minutos já não são ideais, tanto que, nos dias de hoje muitos neurocientistas recomendam aulas de no máximo 15 minutos. Vamos lá para a segunda questão, com mais detalhes sobre esse novo formato.

A tendência é que as aulas sejam mais curtas 

Um dos mais renomados neurocientistas da atualidade, que já referimos em outro artigo, o espanhol Francisco Mora, é doutor em neurociência pela Universidade de Oxford e defende que devemos acabar com as aulas de 50 minutos:

“Estamos percebendo, por exemplo, que a atenção não pode ser mantida durante 50 minutos, por isso é preciso romper o formato atual das aulas. Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos.” (Mora, 2017)

Mora ainda contribui ao afirmar que o educador deve pensar em ciclos de aprendizagem, mesclando os formatos de ensino a cada 15 minutos (discurso, leitura, atividade prática, dinâmicas em grupo, etc.), para que os alunos não fiquem entediados e tenham um poder de concentração maior. Lembramos que, conforme os conceitos andragógicos, cada indivíduo aprende de uma maneira, portanto o educador deve estar preparado para isso e utilizar as metodologias ativas direcionadas ao público em sala.

Outra pesquisa interessante é publicada por Bunce, Flens & Neiles, em 2010 (How Long Can Students Pay Attention in Class?). A rica investigação apresenta diversas situações sobre a atenção dos estudantes em sala de aula. O ponto mais interessante são os lapsos de atenção que os estudantes apresentam, seja durante o discurso do professor, seja na leitura de um livro. Recomendo a leitura completa deste estudo, principalmente da demonstração dos dados coletados.

Se no século passado os estudantes passam a receber estímulos externos, imagine agora em 2020. Alguns exemplos: mensagens no WhatsApp, atualizações nas redes sociais, preocupação com a lista de compra do mercado, cobranças do trabalho via e-mail, pendências com o cliente, ligações dos filhos, notícias sobre algum tema de sua atenção, o jogo do seu time do coração, etc.

Quando perguntamos se as aulas de 50 minutos são ideais, devemos entender que cada vez mais o professor precisa ‘se virar nos 30’ para ter a atenção de seus alunos. Uma coisa que todo estudo defende é que se você é um ‘professor chato’, que só fala sobre suas experiências, passa aqueles vídeos cansativos e propõe dinâmicas sem sentido, é claro que isso deixa mais crítica a situação.

O ‘poder de atenção‘ dos indivíduos é cada vez menor. Quer um exemplo claro? Se você gosta de assistir seriados, deve lembrar que os primeiros tinham algo em torno de 50 minutos e com o tempo chegaram em 45. Atualmente, muitos já estão próximos de 42 minutos, outros menos do que isso. A tendência é que esse número diminua cada vez mais, para que a atenção seja mantida por todo o episódio.

Precisa de outro exemplo? Então vamos lá. Qual é a duração sugerida para vídeos no Youtube? A própria plataforma recomenda que os vídeos não sejam superiores a 15 minutos de duração. Perceba que a maioria dos youtubers influentes gravam vídeos de 10 minutos, é claro que isso depende do tema e do público que pretende atingir (além da questão financeira: anúncios no meio do vídeo).

Esses dois exemplos (seriados e vídeos no Youtube) seguem uma tendência de que o poder de concentração do individuo é cada vez menor. Se queremos ter a atenção destes usuários, assim como dos alunos em sala de aula, temos que aplicar técnicas e conceitos para ir contra essa tendência.


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Para referenciar o artigo, utilizar:

– Beck, C. (2020). Aulas de 50 minutos são ideais? Andragogia Brasil. Disponível em: https://andragogiabrasil.com.br/aulas-de-50-minutos-sao-ideais

2 comentários
Caio Beck
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2 Comentários

  • José Pacheco
    março 13, 2020, 11:16 am

    Aulas? Nem de 50, nem de 45…
    Na Escola da Ponte, deixamos de dar aula há 44 anos.
    E a Ponte é a maior referência em educação, quando se fala de escolanovismo.
    E não se trata de andragogia, nem de pedagogia, mas de antropogogia.
    Estou disponível, para conversarmos.
    Com amizade,
    José Pacheco

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    • Caio Beck@José Pacheco
      abril 3, 2020, 12:19 am

      José Pacheco, é um prazer enorme receber seu comentário/reflexão neste post.
      Temos muito a aprender contigo!
      Um abraço, com admiração.

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